segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Jardineiro

Um homem uniformizado, empunhando uma vassoura antiga, do tipo que as bruxas usavam para voar, varre meticulosamente as folhas caídas no chão do parque. Ao ver que me aproximo, detem o movimento. Imagino que o faz para impedir que seu trabalho incomode meu passeio. Olho para ele e agradeço com um sorriso, espontâneo embora formal. Ele sorri de volta. Em minha fantasia, raros dentre os burgueses que costumam caminhar naquele parque prestam atenção no gesto de cortesia que lhes costuma fazer o humilde varredor. De nada, responde-me o funcionário. E, encerrando o pequeno diálogo, adverte em tom paternal, apontando o trecho adiante, em que o caminho está coberto de limo antigo: Cuidado! Essa lama escorrega muito.
Lembro-me do Sermão da Montanha. Encontrei (afinal!) um homem de boa vontade.
Uma vez mais agradeço e prossigo um pouco mais contente minha caminhada.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Outros carnavais

          Manifestações mais autênticas de algo que se poderia chamar de cultura brasileira são as letras das marchinhas de carnaval. O gênero hoje parece ter sido superado pelos sambas grandiloquentes, compostos a cada ano para o desfile das escolas. Mas durante uma grande parte do século passado, as alegres e irreverentes marchas, com seu ritmo saltitante, marcaram uma época. Eram cantadas por todos, as mais conhecidas incorporavam-se ao repertório e eram repetidas, ano após ano, carnaval após carnaval. Muitas delas, ainda se cantam até hoje.

            E, no entanto, uma grande parte delas seria hoje, por certo, considerada como politicamente incorreta e acarretaria protestos indignados, quando não ações judiciais.

            O primeiro exemplo são marchas com elementos que poderiam, até com certa procedência ser acusados, de racistas. A mais conhecida delas, a famosa O teu cabelo não nega, composta em 1931 pelo popularíssimo Lamartine Babo. O cabelo da moça que inspirou a marcha  não negava que ela era mulata na cor. Mas, continuava a letra, como a cor não pega (ou seja, não é como uma doença contagiosa), mulata  quero seu amor. Afinal, dizia  ainda o cantor, tens um sabor bem do Brasil, tens a alma cor de anil.  Onze anos depois, para o Carnaval de 1942, batendo no mesmo tema, fez sucesso uma composição de David Nasser que tinha como estribilho uma pergunta escarnecedora, feita uma moça chamada de nega do cabelo duro: nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia? No entanto, esse mesmo cabelo feito, à couve flor, produto talvez de misamplis a ferro e fogo, tem, para o autor, um quê que me tonteia e que o leva a chamar aquela a quem a canção é dirigida de minha nega, meu amor.

            Não só quanto ao tema racismo a cultura popular brasileira gerava composições que hoje poderiam ser consideradas politicamente incorretas.  Uma feminista consciente e exaltada provavelmente não aceitaria o estereótipo de mulher que Ataulpho Alves e Mário Lago cunharam na imortal Amélia, que não tinha a menor vaidade, passava fome ao lado do companheiro e, quando o  via contrariado, dizia simplesmente  meu filho o que se há de fazer.

            Diversos outros grupos eram ironizados e tratados sem o devido respeito. Os nossos indígenas eram apresentados por Haroldo Lobo e Milton Oliveira de forma tendenciosa e irônica, na marcha em que um índio recusa o colar que, na ilha de Bananal,  lhe era oferecido pela mulher de branco, dizendo que queria, na verdade, um apito. Índio viu presente mais bonito, eu não quer colar, índio quer apito. E, se não der pau vai comer.

            E que dizer, da marchinha de João Roberto Kelly e Roberto Faiçal, claramente homofóbica que, observando a cabeleira de um rapaz de nome Zezé, perguntava como qualificá-lo, procurando enquadrá-lo, um cardápio de preconceitos: Será que ele é bossa nova, será que ele é Maomé? E acrescentava depois, com evidente e depreciativo jogo de palavras: parece que é transviado mas isso eu não sei se ele é.  Como se não bastasse, o estribilho convidava por fim, repetidamente em tom marcial, a uma ação violenta e sumária – Corta o cabelo dele! Corta o cabelo dele!

            Portadores de alguma deficiência tampouco escapavam do escárnio dos carnavalescos: ficou famosa a interpretação feita pelo cômico Oscarito da Marcha do Gago, composta em 1950 por Armando Cavalcanti e Klécius Caldas. Era uma piada sobre um homem portador de gagueira que, aflito, presumidamente sofrendo de um acesso de diarréia,  procura  um botequim. Chega perto do gerente, que padecia da mesma deficiência e diz: Eu estou, tou, tou, tou. Onde é que está, tá, tá, tá? E outro gago gaguejou – Chi, trá, rá, rá, rá. É verdade que havia também canções que aparentemente proclamavam com orgulho algo por alguns percebido como deficiência. Mas só mesmo por ingenuidade é que não se veria na famosa Nós os carecas, um duplo sentido obsceno. Por que seriam os carecas com as mulheres,  os maiorais e por que, na hora do aperto é dos carecas que elas gostam mais? Uma eventual Associação de Defesa dos Calvos e Glabros poderia por certo tentar obter em juízo uma liminar para apagar dos registros composição deste jaez.

            Estivesse em vigor à época, o Estatuto do Idoso por certo puniria com rigor Jackson do Pandeiro que, em 1961, levou ao grotesco os problemas da terceira idade proclamando que o velho gagá, já deu o que tinha que dar.

            Outras minorias étnicas ou culturais também  teriam razão para protestar contra clichês que atingiam, por exemplo, a operosa comunidade de descendência sírio libanesa retratada de forma desrespeitosa na figura do mascate Abdalla. Sobe e desce morro carregando sua mala, chega fim do mês, ninguém paga o Abdalla. Nisseis e sanseis por certo discordariam com veemência da afirmação de que japonês não passa mal, posto que no Japão,  não há mulher bonita nem feia, é tudo igual.

            Certamente que em nome do interesse público, não seria permitida hoje a divulgação de marchas como a famosa As águas vão rolar, normalmente cantada com voz enrolada e exortando ao vício do alcoolismo:  garrafa cheia eu não quero ver sobrar. É claro que, nesse caso, seria possível uma solução de compromisso, com a inserção de um aviso aconselhando moderação. Compromisso, porém, talvez não fosse possível com Rita Lee, quando exorta, com som e música, a prática de sexo e o uso de lança perfume.  E muito menos com Carlos Gardel, quando proclamava em antigo e conhecido tango, que fumar es un placer.    

            Mas, já estamos falando de tango argentino. Voltando ao assunto e para concluir, assim como Mário Lago e Ataulpho Alves tinham saudades da Amélia, que era mulher de verdade, eu tenho saudade da época em que o culto do politicamente correto não reprimia a espontânea criatividade e a natural irreverência do brasileiro.

            E, embora eu tenha direito à proteção do Estatuto do Idoso, não tenho a menor intenção de invocar seus dispositivos  para  proibir que se execute, grave ou divulgue na Internet a marcha do velho gagá. 

            O respeito ao próximo não se impõe por lei, não se reivindica por ação judicial, não se define por palavrosos estatutos.  É possível ferir profundamente sentimentos respeitáveis e, ao mesmo tempo, obedecer ao pé da letra as definições estabelecidas como politicamente corretas; como pode-se também descumprir  fórmulas especiosas e não magoar ninguém. De novo: o respeito ao próximo é matéria mais de consciência e percepção do que de leis e ações judiciais. E, acredito, a repressão estatutária ao discurso espontâneo, antes que aperfeiçoar a consciência, tende a distorcê-la e a desenvolver atitudes formais contidas e hipócritas.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Finados

          As eleições desviaram meu blog de seu título. Por dois dias, ele deixou de apresentar reflexões sobre o cotidiano, para expor pontos de vista e divagações, sobre política.
            Mas o cotidiano sempre se impõe. Ao blog e a tudo mais. É no cotidiano, no cada dia, não nos grandes momentos, que se vive.
            Hoje, ou amanhã, não sei direito, é dia de finados. Dia de recordar (celebrar?) os mortos. Os meus mortos – pai, mãe, avós, primos, amigos que se foram  – prefiro mantê-los vivos. Vivos nas memórias esporádicas, que aparecem sem dia certo e os trazem ao presente. Continuam existir, para mim, nessas recordações. Assim como eu mesmo, espero, continuarei a existir, quando minha vez chegar, nas memórias dos que me conheceram.
            A morte não existe. Existe apenas um desaparecimento gradual, um lento esvanecer-se na noite eterna do tempo.
            De meu bisavô, avô de meu pai, que não conheci pessoalmente, pois partiu antes que eu tivesse nascido, ainda tenho histórias para contar. Do pai dele, meu trisavô, não sei  quase nada. Mais além no passado, desaparece o quase, fica o nada, a memória perdida, o vazio, para o qual em pequenos passos caminhamos todos.   
            Façamos longas nossas próprias vidas, tentando construir memórias boas.
           

domingo, 31 de outubro de 2010

Apesar

             Apesar dos alegados oitenta e tantos por cento de popularidade …
            Apesar do apoio escancarado e maciço do Presidente e de toda a máquina de governo à candidatura Dilma…
            Apesar dos milhões de votos cativos, votos de gratidão, dos beneficiários do Bolsa Família …
            Apesar dos reais e dólares, em envelopes e cuecas, que por certo continuaram a fluir para a campanha…
            Apesar da absoluta falta de carisma de José Serra …
            Apesar do Chico Buarque de Holanda …
             44% dos brasileiros votaram diretamente contra o governo, disseram um firme não ao petismo e ao Presidente Lula.
            É uma percentagem que manda um recado claro. É como se mais de 40 milhões de cidadãos, em coro, proclamassem: Lula você não é a opinião pública, não é a unanimidade,  não é um ungido do Senhor, não é o salvador da pátria, não é o pai do povo.
            A não vitória no primeiro turno e as percentagens finais, colocaram as coisas nos seus lugares: Lula é um político carismático, bastante popular, certamente bem sucedido, um autêntico líder. Mas em quem uma parte substancial de seus concidadãos não confia e gostaria de ver aposentado e distante.
            O esquema de poder instalado em torno do líder, que tinha a certeza da vitória no primeiro turno, se reagrupou rapidamente e, por maioria bem menor que esperava venceu no segundo  turno.
            Amanhã começa a luta entre as diversas correntes, tão diferentes uma da outra, que se uniram para eleger Dilma.
           Hoje foi Dilma contra Serra. Amanhã será radicais contra fisiológicos. Radicais contra moderados. Moderados contra fisiológicos. Revolucionários contra conservadores. Tudo isso sem ter na frente da cena o árbitro maior - o futuro EX.
            Vai ser divertido assistir.  Ao fim, espero, vencerá a democracia, e logo estaremos em 2014, provavelmente com Lula, Aécio e Marina disputando a presidência.
               Isso é o jogo político. Ao qual parece que estamos, afinal, nos acostumando.
            






Os louros da vitória

Se, como tudo parece indicar, as pesquisas estiverem certas, a noite de hoje será noite de festa nas hostes petistas. Rodeado de amigos, entre foguetes e libações, o Presidente Lula comemorará a vitória. Estará, por certo, orgulhoso e eufórico. Terá dado, ao país e ao mundo, uma prova maiúscula de sua popularidade. Graças a ele uma candidata quase desconhecida, gorducha e inábil, dura e antipática, atingida por um escândalo comprovado de corrupção diretamente na sua esfera imediata de influência, uma candidata que, por seus próprios méritos, não se elegeria talvez nem vereadora, terá recebido o voto de mais de metade dos brasileiros.

            Não será, é certo, uma maioria tão significativa como talvez, em momentos de euforia, o Presidente tivesse sonhado. Mas será, ninguém pode negar, uma vitória. Uma vitória pessoal. Lula terá conseguido transferir popularidade suficiente para eleger sua sucessora.

            E o Presidente irá dormir feliz, aplaudido e consagrado, ostentando a coroa de louros de vencedor.

            Mas talvez, já no dia seguinte, Lula comece a pensar que, se a vitória só foi possível por sua atuação, os respectivos frutos beneficiarão diretamente a outros, não a ele.  Em janeiro, Dilma, não ele, será presidente – ou presidenta – do Brasil e será ela, não ele, que terá o comando dos itinerários da aeronave, hoje batizada Aerolula. Quem sabe passe a chamar-se o Vassourão… Será ela, não ele quem assinará decretos e promulgará leis, quem será recebida como chefe dos brasileiros, por reis e rainhas, por Barack Obama e Ahmadinejad.

            Também o PMDB será consagrado vencedor. Talvez que a popularidade do Presidente, por si só, não tivesse sido bastante para que Dilma Roussef batesse José Serra. Decisivo ou não, ninguém em sã consciência poderá negar que o apoio maciço  de um grande partido organizado, com bases por todo Brasil, foi peça fundamental da aliança vitoriosa. E as contas serão apresentadas: Jáder Barbalho, José Sarney, Renan Calheiros, Fernando Collor, também estarão em festa e, já no dia seguinte, irão por certo reivindicar a recompensa de seus esforços.

            Mais discreto, contido e sóbrio como um bom jogador de xadrez, José Dirceu prosseguirá suas manobras, agora com muito mais cacife. Seu amplo projeto de poder, do qual o incidente do mensalão foi apenas um pequeno desvio, prossegue firme, impregnando a República como um litro de água derramado impregna uma almofada de sofá.

            Que será de Lula, quando virar ex-presidente? Ele, o vencedor, ele o líder, conformar-se-á a ser um nome sem cargo, não mais em um palácio, mas em um apartamento de classe média em Santo Bernardo do Campo, aguardando quatro anos para a volta ao poder, sem verbas públicas para lhe pagar os ternos bem cortados de tecido italiano e os vestidos de D. Mariza, sem um avião à sua espera, sem telefonemas cotidianos de chefes de estado, sem  hordas de repórteres todo tempo à sua volta?      

            Alguma coisa o nosso atual presidente, planeja para quando for apenas um ex-presidente. Que será? Se Serra fosse eleito, talvez fosse melhor: ele seria o destacado comandante de uma oposição ferrenha.  Mas, vencedor, há de ter outros planos: não lhe bastará, por certo, lançar-se desde logo candidato à volta ao poder em 2014.

            Que pleiteará então? Fazer conferências bem remuneradas a caminho de uma velhice tranqüila?  Não parece ser o gênero. Candidatar-se a Secretário Geral da ONU? Talvez seja uma cogitação; mas dúvidas ponderáveis quanto à possibilidade de sucesso, por certo, não encorajam a tentativa.  Ocupar a chefia da Casa Civil da Presidenta Dilma para, de fato, continuar indiretamente comandando o país?  Talvez fosse uma boa. Mas, creio ser pouco provável que a própria Dilma concorde em ser tutelada.

            O que, então? Não sei.

            O desfecho lógico seria fundar um novo partido,  o PLPB, Partido Lulista do Povo Brasileiro. e sair em pregação, Brasil afora, defendendo uma nova Constituição, talhada sob medida para consagrar o caudilhismo personalista.     

            Quem viver verá.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Lar, doce lar

Um amigo meu americano, que fala português, me pergunta por e-mail qual o endereço do meu lar.
Evidentemente queria saber o endereço de minha residência e estava traduzindo literalmente o inglês home adress. Em português, o lar não tem endereço. É uma instituição, é uma abstração, um conceito,  não uma localização geográfica. Meu lar, meu asilo inviolável, minha fonte de energia não corresponde a um número em uma rua,  nem a um bairro,  nem sequer a uma cidade.
Tem muita gente que tem residência e não tem lar. Como pode-se pensar em um lar que não corresponda a uma residência.
Não tentei, porém, explicar a distinção ao meu amigo. Informei simplesmente meu endereço residencial. Sem comentários.
E simpatizei com minha lingua materna que tem substantivos com carga afetiva.

domingo, 17 de outubro de 2010

Escolha

Há alguns anos, uma caricatura sobre eleições  publicada em uma revista americana ficou registrada em minha memória. A figura era clássica, uma pessoa com as mãos para cima. Às suas costas uma outra pessoa, de máscara, com um revólver encostado em sua nuca, em atitude típica de assalto. Só que o assaltante, em vez do clássico "a bolsa ou a vida", citava como opção os nomes dos dois candidatos a Presidente da República que então disputavam as eleições, se não me engano, "Carter ou Reagan" . E o assaltado, com firmeza,, respondia: "Shoot" . "Pode atirar". Sinto-me hoje como esse americano assaltado, verdadeiramente agredido pela escolha que tenho que fazer. Nenhum dos dois candidatos me desperta simpatia. Ambos, para ser mais preciso, irritam-me, com um discurso que se sente falso, enlatado por marqueteiros, em função de supostas análises de pesquisas.

Eu poderia simplesmente não votar. Com mais de 70 anos conquistei esse direito. Mas não consigo. Afinal, ou Dilma ou Serra, um dos dois será o Presidente. E eu tenho direito e o dever  de contribuir com 1/100.000.000  para escolher, dos dois, o menos ruim.

Mas é triste a opção.