domingo, 31 de outubro de 2010

Apesar

             Apesar dos alegados oitenta e tantos por cento de popularidade …
            Apesar do apoio escancarado e maciço do Presidente e de toda a máquina de governo à candidatura Dilma…
            Apesar dos milhões de votos cativos, votos de gratidão, dos beneficiários do Bolsa Família …
            Apesar dos reais e dólares, em envelopes e cuecas, que por certo continuaram a fluir para a campanha…
            Apesar da absoluta falta de carisma de José Serra …
            Apesar do Chico Buarque de Holanda …
             44% dos brasileiros votaram diretamente contra o governo, disseram um firme não ao petismo e ao Presidente Lula.
            É uma percentagem que manda um recado claro. É como se mais de 40 milhões de cidadãos, em coro, proclamassem: Lula você não é a opinião pública, não é a unanimidade,  não é um ungido do Senhor, não é o salvador da pátria, não é o pai do povo.
            A não vitória no primeiro turno e as percentagens finais, colocaram as coisas nos seus lugares: Lula é um político carismático, bastante popular, certamente bem sucedido, um autêntico líder. Mas em quem uma parte substancial de seus concidadãos não confia e gostaria de ver aposentado e distante.
            O esquema de poder instalado em torno do líder, que tinha a certeza da vitória no primeiro turno, se reagrupou rapidamente e, por maioria bem menor que esperava venceu no segundo  turno.
            Amanhã começa a luta entre as diversas correntes, tão diferentes uma da outra, que se uniram para eleger Dilma.
           Hoje foi Dilma contra Serra. Amanhã será radicais contra fisiológicos. Radicais contra moderados. Moderados contra fisiológicos. Revolucionários contra conservadores. Tudo isso sem ter na frente da cena o árbitro maior - o futuro EX.
            Vai ser divertido assistir.  Ao fim, espero, vencerá a democracia, e logo estaremos em 2014, provavelmente com Lula, Aécio e Marina disputando a presidência.
               Isso é o jogo político. Ao qual parece que estamos, afinal, nos acostumando.
            






Os louros da vitória

Se, como tudo parece indicar, as pesquisas estiverem certas, a noite de hoje será noite de festa nas hostes petistas. Rodeado de amigos, entre foguetes e libações, o Presidente Lula comemorará a vitória. Estará, por certo, orgulhoso e eufórico. Terá dado, ao país e ao mundo, uma prova maiúscula de sua popularidade. Graças a ele uma candidata quase desconhecida, gorducha e inábil, dura e antipática, atingida por um escândalo comprovado de corrupção diretamente na sua esfera imediata de influência, uma candidata que, por seus próprios méritos, não se elegeria talvez nem vereadora, terá recebido o voto de mais de metade dos brasileiros.

            Não será, é certo, uma maioria tão significativa como talvez, em momentos de euforia, o Presidente tivesse sonhado. Mas será, ninguém pode negar, uma vitória. Uma vitória pessoal. Lula terá conseguido transferir popularidade suficiente para eleger sua sucessora.

            E o Presidente irá dormir feliz, aplaudido e consagrado, ostentando a coroa de louros de vencedor.

            Mas talvez, já no dia seguinte, Lula comece a pensar que, se a vitória só foi possível por sua atuação, os respectivos frutos beneficiarão diretamente a outros, não a ele.  Em janeiro, Dilma, não ele, será presidente – ou presidenta – do Brasil e será ela, não ele, que terá o comando dos itinerários da aeronave, hoje batizada Aerolula. Quem sabe passe a chamar-se o Vassourão… Será ela, não ele quem assinará decretos e promulgará leis, quem será recebida como chefe dos brasileiros, por reis e rainhas, por Barack Obama e Ahmadinejad.

            Também o PMDB será consagrado vencedor. Talvez que a popularidade do Presidente, por si só, não tivesse sido bastante para que Dilma Roussef batesse José Serra. Decisivo ou não, ninguém em sã consciência poderá negar que o apoio maciço  de um grande partido organizado, com bases por todo Brasil, foi peça fundamental da aliança vitoriosa. E as contas serão apresentadas: Jáder Barbalho, José Sarney, Renan Calheiros, Fernando Collor, também estarão em festa e, já no dia seguinte, irão por certo reivindicar a recompensa de seus esforços.

            Mais discreto, contido e sóbrio como um bom jogador de xadrez, José Dirceu prosseguirá suas manobras, agora com muito mais cacife. Seu amplo projeto de poder, do qual o incidente do mensalão foi apenas um pequeno desvio, prossegue firme, impregnando a República como um litro de água derramado impregna uma almofada de sofá.

            Que será de Lula, quando virar ex-presidente? Ele, o vencedor, ele o líder, conformar-se-á a ser um nome sem cargo, não mais em um palácio, mas em um apartamento de classe média em Santo Bernardo do Campo, aguardando quatro anos para a volta ao poder, sem verbas públicas para lhe pagar os ternos bem cortados de tecido italiano e os vestidos de D. Mariza, sem um avião à sua espera, sem telefonemas cotidianos de chefes de estado, sem  hordas de repórteres todo tempo à sua volta?      

            Alguma coisa o nosso atual presidente, planeja para quando for apenas um ex-presidente. Que será? Se Serra fosse eleito, talvez fosse melhor: ele seria o destacado comandante de uma oposição ferrenha.  Mas, vencedor, há de ter outros planos: não lhe bastará, por certo, lançar-se desde logo candidato à volta ao poder em 2014.

            Que pleiteará então? Fazer conferências bem remuneradas a caminho de uma velhice tranqüila?  Não parece ser o gênero. Candidatar-se a Secretário Geral da ONU? Talvez seja uma cogitação; mas dúvidas ponderáveis quanto à possibilidade de sucesso, por certo, não encorajam a tentativa.  Ocupar a chefia da Casa Civil da Presidenta Dilma para, de fato, continuar indiretamente comandando o país?  Talvez fosse uma boa. Mas, creio ser pouco provável que a própria Dilma concorde em ser tutelada.

            O que, então? Não sei.

            O desfecho lógico seria fundar um novo partido,  o PLPB, Partido Lulista do Povo Brasileiro. e sair em pregação, Brasil afora, defendendo uma nova Constituição, talhada sob medida para consagrar o caudilhismo personalista.     

            Quem viver verá.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Lar, doce lar

Um amigo meu americano, que fala português, me pergunta por e-mail qual o endereço do meu lar.
Evidentemente queria saber o endereço de minha residência e estava traduzindo literalmente o inglês home adress. Em português, o lar não tem endereço. É uma instituição, é uma abstração, um conceito,  não uma localização geográfica. Meu lar, meu asilo inviolável, minha fonte de energia não corresponde a um número em uma rua,  nem a um bairro,  nem sequer a uma cidade.
Tem muita gente que tem residência e não tem lar. Como pode-se pensar em um lar que não corresponda a uma residência.
Não tentei, porém, explicar a distinção ao meu amigo. Informei simplesmente meu endereço residencial. Sem comentários.
E simpatizei com minha lingua materna que tem substantivos com carga afetiva.

domingo, 17 de outubro de 2010

Escolha

Há alguns anos, uma caricatura sobre eleições  publicada em uma revista americana ficou registrada em minha memória. A figura era clássica, uma pessoa com as mãos para cima. Às suas costas uma outra pessoa, de máscara, com um revólver encostado em sua nuca, em atitude típica de assalto. Só que o assaltante, em vez do clássico "a bolsa ou a vida", citava como opção os nomes dos dois candidatos a Presidente da República que então disputavam as eleições, se não me engano, "Carter ou Reagan" . E o assaltado, com firmeza,, respondia: "Shoot" . "Pode atirar". Sinto-me hoje como esse americano assaltado, verdadeiramente agredido pela escolha que tenho que fazer. Nenhum dos dois candidatos me desperta simpatia. Ambos, para ser mais preciso, irritam-me, com um discurso que se sente falso, enlatado por marqueteiros, em função de supostas análises de pesquisas.

Eu poderia simplesmente não votar. Com mais de 70 anos conquistei esse direito. Mas não consigo. Afinal, ou Dilma ou Serra, um dos dois será o Presidente. E eu tenho direito e o dever  de contribuir com 1/100.000.000  para escolher, dos dois, o menos ruim.

Mas é triste a opção.

sábado, 16 de outubro de 2010

Sobre forma e substância, razão e emoção.

O médico, dono da clínica onde faço exercício, vai viajar. É a terceira ou quarta vêz este ano. Reclamo. Digo que o dever dele é  estar à frente da clínica, como a dona de um restaurante,  que todos os dias está no caixa, os cotovelos apoiados no balcão, controlando o movimento. Ele me responde que está tudo funcionando direito, que tenho nos assistentes, ajudantes e aparelhos tudo que preciso. Tem razão. Nada me falta. O serviço que pago é o mesmo, com ou sem a presença do dono.  Pergunto, não a ele mas a mim mesmo, se a presença física do dono é realmente necessária. Não seria apenas, indago-me, uma questão de forma? Ou será que a confiança, que é, por definição, irracional, exige de fato a presença física para se manter. Não encontro resposta. Bem ... Até que encontro. Mais uma vez  brigam em mim a razão que me diz que estou me apegando a mera formalidade e a emoção que exige atenção.
E vão continuar brigando, por todo o sempre, razão contra emoção, forma contra substância,  como o bem contra o mal. Sem que nunca aja um vencedor porque o choque é necessário e o confronto é a vida.