O médico, dono da clínica onde faço exercício, vai viajar. É a terceira ou quarta vêz este ano. Reclamo. Digo que o dever dele é estar à frente da clínica, como a dona de um restaurante, que todos os dias está no caixa, os cotovelos apoiados no balcão, controlando o movimento. Ele me responde que está tudo funcionando direito, que tenho nos assistentes, ajudantes e aparelhos tudo que preciso. Tem razão. Nada me falta. O serviço que pago é o mesmo, com ou sem a presença do dono. Pergunto, não a ele mas a mim mesmo, se a presença física do dono é realmente necessária. Não seria apenas, indago-me, uma questão de forma? Ou será que a confiança, que é, por definição, irracional, exige de fato a presença física para se manter. Não encontro resposta. Bem ... Até que encontro. Mais uma vez brigam em mim a razão que me diz que estou me apegando a mera formalidade e a emoção que exige atenção.
E vão continuar brigando, por todo o sempre, razão contra emoção, forma contra substância, como o bem contra o mal. Sem que nunca aja um vencedor porque o choque é necessário e o confronto é a vida.
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