domingo, 5 de setembro de 2010

Forcas e feriados

Amanhã é feriado, dia da independência.


Acho que nos Estados Unidos, quando o 4 de julho, dia da independência deles cai em um domingo prorroga-se o feriado para o dia seguinte. O feriado é uma necessidade prática fixada em algumas poucas datas do ano e que não pode ser desperdiçado.  Já nós esbanjamos feriados e podemos nos dar o luxo de celebrar em um domingo a independência, a república, Nossa Senhora da Aparecida, o Natal,  o enforcamento de Tiradentes, o santo padroeiro local,  e o que mais venha ser decretado como ponto facultativo ou dia de folga. Sem esquecere  de sempre que possível, aproveitar um feriado para enforcar,  como Tiradentes foi enforcado, mais um dia de trabalho. Hoje, por exemplo.

Muitos protestam contra os enforcamentos e o excesso de feriados que haveria em nosso país. Talvez, realmente, seja um ponto negativo, um obstáculo ao progresso. Mas talvez seja também um motivo de otimismo, uma válvula de escape que permite liberar tensões.

Prefiro esta última postura. Acho mais produtivo o gosto risonho pelo ócio que obsessão torturada pelo trabalho.

Pressa e Prazeres

Tenho às vezes receio que meus posts sejam excessivamente longos. Não há mais paciência para textos longos. Azar. Escreverei do jeito que eu gosto e sei. Observo que cada dia tudo é feito com mais pressa, correndo, com aflição. Os prazeres são procurados com fome, esquecendo que quem está  faminto não distingue sabores, não aproveita devidamente um  banquete. Os verdadeiros prazeres – todos eles - têm que ser saboreados com calma, devagar, degustando, apreciando o pormenor, observando as pequenas diferenças. Até a palavra “curtir”, usada às vezes quase como sinônimo de “gostar”, implica um processo lento, paciente. Quem não gostar de textos maiores pode deixar de ler os meus, e como os beija flores e borboletas, ficar voejando veloz, de flor para flor. Eu continuarei a escrever devagar procurando dar a meus poucos leitores o prazer de, devagar também, entender as idéias que vou lançando e apreciar a forma de expô-las, que tento sinceramente fazer que seja agradável.

xxxxxx

 Um novo prazer

Descobri um novo prazer, vão e passageiro como todos. Tenho dormido tarde, ao início da madrugada. Algumas horas depois, em torno de 8 horas, acordo, tomo o café da manhã, saboreio trechos selecionados do jornal e … volto para cama. Durmo então, com alegria, um novo tipo de sesta. Um sono descansado, solto, sem compromisso nem rótulo.

A vida só tem sentido porque existe a morte. Os melhores prazeres da vida têm em sua essência elementos de morte. Há até quem chame o orgasmo profundo de pequena morte.

Pequena morte, sem dor, nem angústia, gostosa e leve, é o adormecer. Especialmente na hora da sesta do café da manhã. Prazer simples.

sábado, 4 de setembro de 2010

Rotinas e registro

01/07/2010 - Rotinas




Desenvolvo, a cada dia, novas rotinas. Para citar um exemplo: todos os sábados, almoço com minha mulher em um determinado restaurante do Leblon, sempre o mesmo. E sempre, religiosamente à mesma hora. Levo à boca a primeira garfada pontualmente ao meio dia. E observo que rotinas como essa permitem conquistar liberdades.



Ser livre é sempre ser livre de alguma coisa. Só quem está preso pode se libertar; quem está solto não se sente livre por que não tem de que o ser. Criando rotinas, crio prisões. E de prisões cotidianas posso, se quiser, libertar-me. Só a rotina, em suma, pode propiciar por contraste algum tipo de verdadeira liberdade.



02/07/2010 - Registros e obrigações



Registro que, nesta data, a despeito de ter jogado muito melhor o primeiro tempo e de eu estar novamente usando a camisa amarela, o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo pela Holanda.



Sinto-me obrigado a fazer este registro. Quem me obriga? Ninguém. É uma obrigação para comigo mesmo, verdadeira e irresistível compulsão. Que estranha força será é essa que impõe obrigações sem motivo e deveres para com ninguém? Serei eu o único a ser tomado por esse tipo de impulso? Farei parte de um grupo capaz de ser rotulado como vítima de algum tipo de distúrbio?



Ou será que todas as pessoas, ou todas as pessoas classificáveis como normais, sofrem compulsões desse tipo e são compelidas por inexplicáveis forças interiores a pratica determinadas ações sem qualquer propósito específico?



Acho que a última hipótese é verdadeira e relevante. Não há, a meu ver, quem não receba de quando vem vez comandos impositivos, ordens cabais para fazer ou deixar da fazer o que, de fato não é preciso nem serve a nada nem a ninguém.

Pelo sim, pelo não

Postado em plena Copa do Mundo:


28/06/2010 Ao levantar-me hoje de manhã, apanhei e vesti sem pensar a camisa que estava no topo da pilha na prateleira de camisas. À medida que o dia passava, dava-me conta que a camisa vermelha que eu estava usando era quase da mesma cor que a camisa da seleção do Chile. E hoje o Brasil joga com o Chile. É um jogo de Copa do Mundo. Não posso vê-lo usando as cores do inimigo. Vai dar azar. A razão arrogante descarta com desprezo a superstição irracional. Nada a ver. Ridículo. Mas o sentimento prevalece. Depois do almoço, perto da hora do jogo, penduro no cabide a camisa vermelha e apanho com consciência, uma camisa amarela. Um amarelo claro não o amarelo carregado forte da camisa do Brasil. E concluo: O Brasil pode até perder, se tiver que perder. Mas se perder não será porque eu, brasileiro, assisti ao jogo com a camisa do Chile.

A superstição é indispensável, impulso irracional que permite afastar a dor da consciência racional da realidade cruel: Nada que eu faça pode modificar o que acontece no estádio na África do Sul. Não posso ter qualquer influência sobre um acontecimento que certamente me afetará, positiva ou negativamente. Saber-me impotente é insuportável. Preciso imaginar, mesmo sabendo falso, que a camisa que eu visto pode causar uma derrota ou ajudar a conquistar uma vitória.

Como são pretensiosos os humanos …

Explicação

Já venho escrevendo para esse blog há algum tempo. Assim, vou postar a cada dia texto já escrito anteriormente com a data em que foi escrito. Por exemplo:

27/06/2010 - Vigilantes

O jornal da televisão noticia confusão ocorrida em estação de metrô de São Paulo. Jovens irreverentes faziam barulho, incomodavam outros passageiros. A segurança dentro do trem pediu - ou mandou, qual a diferença? - que o grupo descesse na estação seguinte. Os jovens se negaram. E a segurança da estação seguinte, avisada pelo rádio, entrou no vagão para retirá-los à força. Houve discussão, troca de palavrões, atos inespecíficos de violência física. E, evidentemente, cobertura midiática.

Impressionante como, sem dizer ou propor nada, a televisão passa a imagem de que os agentes da segurança são brutos que violam o direito das pessoas. A unilateralidade é percebida até quando, ao final da reportagem, o repórter pergunta aos agentes de segurança, acusados de lesões corporais, que, por recomendação do advogado recusam-se a falar: Vocês não querem se defender?

A visão que se tem não é informativa. Nem é tampouco abertamente tendenciosa.

Assim se formam as opiniões. Assim se condena e se absolve.

Não sei o que ocorreu. Mas gosto de pensar que – talvez - os seguranças tenham cumprido seu dever de zelar pela ordem e tranqüilidade dos demais passageiros e foram levados, pela resistência arrogante comum aos jovens, a usar de força física para aplicar-lhe uma sanção razoável. Descer do trem … e pegar outro…

Decisão

Decidi fazer um blog. A idéia de colocar por escrito aquilo que vai me passando pela cabeça é animadora. Acho que todo mundo devia ter seu blog. E nele registrar cotidianamente aflições e alegrias, decepções e surpresas, sensações e reflexões. Com a mesma sinceridade com que se fala ao espelho, mas, ao mesmo tempo, com a dose indispensável de pudor que a publicidade requer.


Acho que todo mundo devia ter seu blog. E, nele, um instrumento de reflexão e de crítica.

Pelo blog pode-se – espero – ter mais nítida consciência de si mesmo.

É isso que pretendo fazer.