Manifestações mais autênticas de algo que se poderia chamar de cultura brasileira são as letras das marchinhas de carnaval. O gênero hoje parece ter sido superado pelos sambas grandiloquentes, compostos a cada ano para o desfile das escolas. Mas durante uma grande parte do século passado, as alegres e irreverentes marchas, com seu ritmo saltitante, marcaram uma época. Eram cantadas por todos, as mais conhecidas incorporavam-se ao repertório e eram repetidas, ano após ano, carnaval após carnaval. Muitas delas, ainda se cantam até hoje.
E, no entanto, uma grande parte delas seria hoje, por certo, considerada como politicamente incorreta e acarretaria protestos indignados, quando não ações judiciais.
O primeiro exemplo são marchas com elementos que poderiam, até com certa procedência ser acusados, de racistas. A mais conhecida delas, a famosa O teu cabelo não nega, composta em 1931 pelo popularíssimo Lamartine Babo. O cabelo da moça que inspirou a marcha não negava que ela era mulata na cor. Mas, continuava a letra, como a cor não pega (ou seja, não é como uma doença contagiosa), mulata quero seu amor. Afinal, dizia ainda o cantor, tens um sabor bem do Brasil, tens a alma cor de anil. Onze anos depois, para o Carnaval de 1942, batendo no mesmo tema, fez sucesso uma composição de David Nasser que tinha como estribilho uma pergunta escarnecedora, feita uma moça chamada de nega do cabelo duro: nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia? No entanto, esse mesmo cabelo feito, à couve flor, produto talvez de misamplis a ferro e fogo, tem, para o autor, um quê que me tonteia e que o leva a chamar aquela a quem a canção é dirigida de minha nega, meu amor.
Não só quanto ao tema racismo a cultura popular brasileira gerava composições que hoje poderiam ser consideradas politicamente incorretas. Uma feminista consciente e exaltada provavelmente não aceitaria o estereótipo de mulher que Ataulpho Alves e Mário Lago cunharam na imortal Amélia, que não tinha a menor vaidade, passava fome ao lado do companheiro e, quando o via contrariado, dizia simplesmente meu filho o que se há de fazer.
Diversos outros grupos eram ironizados e tratados sem o devido respeito. Os nossos indígenas eram apresentados por Haroldo Lobo e Milton Oliveira de forma tendenciosa e irônica, na marcha em que um índio recusa o colar que, na ilha de Bananal, lhe era oferecido pela mulher de branco, dizendo que queria, na verdade, um apito. Índio viu presente mais bonito, eu não quer colar, índio quer apito. E, se não der pau vai comer.
E que dizer, da marchinha de João Roberto Kelly e Roberto Faiçal, claramente homofóbica que, observando a cabeleira de um rapaz de nome Zezé, perguntava como qualificá-lo, procurando enquadrá-lo, um cardápio de preconceitos: Será que ele é bossa nova, será que ele é Maomé? E acrescentava depois, com evidente e depreciativo jogo de palavras: parece que é transviado mas isso eu não sei se ele é. Como se não bastasse, o estribilho convidava por fim, repetidamente em tom marcial, a uma ação violenta e sumária – Corta o cabelo dele! Corta o cabelo dele!
Portadores de alguma deficiência tampouco escapavam do escárnio dos carnavalescos: ficou famosa a interpretação feita pelo cômico Oscarito da Marcha do Gago, composta em 1950 por Armando Cavalcanti e Klécius Caldas. Era uma piada sobre um homem portador de gagueira que, aflito, presumidamente sofrendo de um acesso de diarréia, procura um botequim. Chega perto do gerente, que padecia da mesma deficiência e diz: Eu estou, tou, tou, tou. Onde é que está, tá, tá, tá? E outro gago gaguejou – Chi, trá, rá, rá, rá. É verdade que havia também canções que aparentemente proclamavam com orgulho algo por alguns percebido como deficiência. Mas só mesmo por ingenuidade é que não se veria na famosa Nós os carecas, um duplo sentido obsceno. Por que seriam os carecas com as mulheres, os maiorais e por que, na hora do aperto é dos carecas que elas gostam mais? Uma eventual Associação de Defesa dos Calvos e Glabros poderia por certo tentar obter em juízo uma liminar para apagar dos registros composição deste jaez.
Estivesse em vigor à época, o Estatuto do Idoso por certo puniria com rigor Jackson do Pandeiro que, em 1961, levou ao grotesco os problemas da terceira idade proclamando que o velho gagá, já deu o que tinha que dar.
Outras minorias étnicas ou culturais também teriam razão para protestar contra clichês que atingiam, por exemplo, a operosa comunidade de descendência sírio libanesa retratada de forma desrespeitosa na figura do mascate Abdalla. Sobe e desce morro carregando sua mala, chega fim do mês, ninguém paga o Abdalla. Nisseis e sanseis por certo discordariam com veemência da afirmação de que japonês não passa mal, posto que no Japão, não há mulher bonita nem feia, é tudo igual.
Certamente que em nome do interesse público, não seria permitida hoje a divulgação de marchas como a famosa As águas vão rolar, normalmente cantada com voz enrolada e exortando ao vício do alcoolismo: garrafa cheia eu não quero ver sobrar. É claro que, nesse caso, seria possível uma solução de compromisso, com a inserção de um aviso aconselhando moderação. Compromisso, porém, talvez não fosse possível com Rita Lee, quando exorta, com som e música, a prática de sexo e o uso de lança perfume. E muito menos com Carlos Gardel, quando proclamava em antigo e conhecido tango, que fumar es un placer.
Mas, já estamos falando de tango argentino. Voltando ao assunto e para concluir, assim como Mário Lago e Ataulpho Alves tinham saudades da Amélia, que era mulher de verdade, eu tenho saudade da época em que o culto do politicamente correto não reprimia a espontânea criatividade e a natural irreverência do brasileiro.
E, embora eu tenha direito à proteção do Estatuto do Idoso, não tenho a menor intenção de invocar seus dispositivos para proibir que se execute, grave ou divulgue na Internet a marcha do velho gagá.
O respeito ao próximo não se impõe por lei, não se reivindica por ação judicial, não se define por palavrosos estatutos. É possível ferir profundamente sentimentos respeitáveis e, ao mesmo tempo, obedecer ao pé da letra as definições estabelecidas como politicamente corretas; como pode-se também descumprir fórmulas especiosas e não magoar ninguém. De novo: o respeito ao próximo é matéria mais de consciência e percepção do que de leis e ações judiciais. E, acredito, a repressão estatutária ao discurso espontâneo, antes que aperfeiçoar a consciência, tende a distorcê-la e a desenvolver atitudes formais contidas e hipócritas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário